sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A VOZ DO DEMÔNIO


Olá, ovelhinhas do Senhor, como estão? Saudáveis? Contentes? Hum... Eu estou em Curitiba, para a primeira prova do ano, desejem-me sorte. Aqui está o segundo capítulo dessa história ainda sem nome e eu sei, ficou curtinho, mas prometo recopensá-los no próximo, quando eu tiver mais tempo e tal. Críticas, sugestões, elogios, ovos, tomates, qualquer coisa é válida e (PELOAMORDEEUS) comentem AQUI! Era só, fiquem em paz.


Capítulo 2

A voz do demônio

A fragrância de mofo chegava até as suas narinas, tinha dúvidas se estava de olhos abertos, já que experimentava apenas a escuridão. Era uma sala sem janelas, o ar mal circulava. O rapaz mantinha as costas apoiadas na parede, as pernas dormentes, a cabeça ainda latejando, suspirou fraco. Não tinha idéia por quanto tempo ali estava, tanto que seus pensamentos pareciam ter evaporado. Sonhos, memórias, medos, nada, apenas o vazio, a solidão. A imagem nublada, o constante abrir e cerrar das pálpebras. Aos poucos pôde observar que uma fraca luz se formava no centro do lugar, ignorou-a num primeiro instante, sentiu algo úmido na camisa velha que vestia. Levou dois dedos na direção dos olhos, algumas lágrimas rolavam sem permissão, um ato sobre o qual não tinha controle, elas caíam sem motivo aparente e isso talvez tivesse o ajudado a limpar a vista.

Agora a luz se fazia mais presente deixando-o perceber a mesa que ali estava. Não era nada de mais, apenas uma mesa quadrada, acinzentada, um móvel comum, o que realmente lhe chamou a atenção foi o objeto que sobre ela jazia. Não distinguiu àquela distância, precisava erguer-se, caminhar, forçar os músculos por mais que estivessem nas piores condições. Baixou o olhar e analisou as mãos, parecia inteiro, sinal de que permanecia com vida. Num esforço sobrenatural ficou em pé apoiando-se com uma das mãos na parede escura, deu o primeiro passo, mas uma sombria voz interrompeu o ato.

“Dói não é? Você não consegue carregar esse peso, sua alma está cansada, sua consciência suja, não consegue esquecer, está marcado, e o seu coração sangra... Não é verdade?”.

Mesmo sem poder aguentar o peso das pernas, girou dando pequenos passos de costas ficando de frente para a mureta, a velocidade que o seu pulso tomava começava a lhe assustar.

- Quem é? Quem está aí?

Uma risada inundou o sítio, e pequenas faíscas saltaram do fino rabicho ligado à lâmpada, dando retorno à escuridão. Murmúrios em uma língua estranha chegaram aos seus ouvidos causando-lhe mais pavor, mais uma vez a sensação de ter o calor roubado, quem quer que fosse divertia-se com a situação, pois seu tom de voz aumentava a cada instante. Um som rouco e grave carregado de ironia.

“Não tem importância saber quem sou, melhor, devia se perguntar quem é você”. Começou debochado. “Posso acabar com seu sofrimento, sua pena, oh sim! Posso o fazer grande, um líder, um herói! Diga, apenas diga as palavras certas e eu o aceitarei, diga... Ícaro!”.

Abriu os olhos, apavorado, sentando-se no tapete umedecido pelo suor estável, aos poucos controlou a respiração, apoiando os braços nos joelhos, escondendo a face aterrorizada. Atordoado, o rapaz virou-se para o relógio ainda tentando assimilar o que estava acontecendo. Seus pesadelos tornavam-se mais frequentes, tomando forma, enviando-lhes mensagens cada vez mais enigmáticas. Era certo, não era real, a dor, a voz, apenas sua imaginação, estava crente disso, era a sua loucura aflorando.

Ficou ali por uns dez minutos até o cuco anunciar quatro horas. Sentia-se fraco e outra vez a sensação de ser observado, mas apenas o silêncio lhe fazia companhia. Tombou a cabeça na pequena poltrona no mesmo momento em que o velho gato voltou a se manifestar.

“Miau”.

O moreno girou o olhar até aquela direção para dar de cara com os olhos ferozes do felino negro.

- Ah... É você – soltou sem se importar. – Não estou com vontade de brincar agora, deixe-me em paz. – Midgar nem se moveu, continuou inerte ronronando ainda mais.

“Miau”.

Nicholas selou os olhos com raiva e com sua mesma expressão irritada manifestou-se libertando a fúria que se mantinha adormecida desde o início da manhã.

- GATO IDIOTA! SERÁ QUE NÃO PERCEBE QUE NÃO ESTOU NEM AÍ PRA VOCÊ!? – gritou com todo pulmão.

Encararam-se por mais alguns instantes até o bichano se pôr em quatro patas e voltar para a cozinha deixando o seu dono estupefato. Ele não mencionou palavra alguma, apenas voltou a se sentar suspirando com pesar.

“Droga!”. Pensou. Agora discutia energicamente com gatos, tudo indicava que estava ficando pirado. Primeiro Hana, agora isso, qual seria o próximo passo? Brigar com velhinhas na rua? Não entendia mais nada, essa era a verdade. Estirou-se sobre o estofado e ficou mirando um ponto qualquer no teto, já que não conhecia maneira melhor de se distrair, faltava pouco para adormecer em razão do tédio quando o telefone começou a tocar. Três bipes, o tempo necessário para a secretária eletrônica exercer sua função.

“Oi! Alô... Nicolas... Sou eu... Miguel... Bem... Eu só queria avisar que a sua encomenda chegou e pode vir buscá-la se assim desejar, ou então... eu a levo até aí... bom... de qualquer forma... Se decidir vir buscar eu estarei naquele bar em frente à catedral a partir das sete, não terá dificuldade em me encontrar... Era só isso mesmo, nos falamos... Eu... Preciso ir agora, estão me chamando na sacristia, até breve meu irmão, que Nosso Senhor esteja contigo bip.”

“Você tem uma nova mensagem”.

Não que tivesse prestado atenção no recado, mas pelo menos era alguma coisa para se fazer, foi o que pensou o moreno. Levantou-se e sem fazer nada além de buscar suas chaves e o casaco negro saiu.

*****

- Ele desmaiou, nós o levamos para um quarto de hotel, já não se lembrará de nada até amanhã, mestre.

O semblante do rapaz não era o dos melhores. Os olhos brilhantes, rosto pálido, voz estremecida. Encontrava-se de frente para uma enorme mesa, a sala iluminada pelos raios de Sol que a penetravam através das enormes vidraças do prédio. Entre os dois a cadeira forrada pelo couro negro onde aquela criatura misteriosa mantinha-se séria, de costas para o serviçal.

- O doutor disse alguma coisa, Katawari? – perguntou calmo ainda que sua voz fosse áspera.

O homem que permanecia em posição de sentido gelou ainda mais com a pergunta.

- Na... Não, mestre... Ele apenas pôs uma arma sobre minha testa... He... Creio que tinha intenção de me matar. - riu nervoso.

O “mestre” largou um leve sorriso no canto da boca.

- Matar... – proferiu. – Diga-me, Katawari... – começou para desespero do outro que começava a engolir seco. – Alguma vez se defrontou, eu digo, realmente, com a morte?

Era uma pergunta simples, de uma resposta simples, não havia motivos para estremecer como estava fazendo. Contudo, o mestre já não utilizava de escárnio em sua fala, agora ela era regada de serenidade e certa tristeza. O jovem chegou a perceber o quão frio tornava-se aquele recinto.

- Jamais entenderemos o significado de vida ou morte, por mais que a resposta esteja diante de nossos olhos. Somos seres imperfeitos incapazes de tal compreensão. A felicidade pode estar logo adiante, ao nosso lado, porém nunca estamos satisfeitos, algo falta. Maldita ambição que faz nos perdermos num mar de fúria, solidão e egoísmo. Aos poucos perdemos o pouco que conquistamos, nos defrontamos com um abismo infinito, seu coração se enche de trevas, já não existe o certo e o errado, você esquece os seus princípios, esquece o que é felicidade, então ela surge. Como uma proposta de um novo mundo, uma nova vida, seduz-lhe, a morte, suas mãos se mancham de sangue, você só pensa em destruir, todos ao seu redor são pecadores, não há um ser perfeito, mas você está cego, não percebe seus próprios atos, não vê que é a própria imperfeição...

Nunca. Vez alguma ouvira seu superior falar daquela maneira tão aberta como se estivesse contando um segredo ao melhor amigo. Seu discurso havia lhe capturado toda a atenção. Suas duras palavras, a maneira como descrevia o que era estar diante da morte e não perceber nenhuma luz no final do túnel ou fogo ardente dos caldeirões do inferno. Apenas a leve sensação do vago e o isolamento, um mero nada em pleno deserto. Katawari se encontrava estático a cada nova frase pronunciada. Sentia as pernas amolecerem, não queria ouvir, no final acabaria por descobrir que aquela criatura misteriosa não passava de alguém com boas intenções por mais que se mostrassem cruéis.

-... e você acorda e vê que é apenas um grão de areia perdido nesse imenso deserto. Seco, solitário, só uma mísera parte de um grande todo... No fim se deseja estar morto para não participar desta carnificina, nos enganamos ao achar que somos meros coadjuvantes. – Terminou por dizer lentamente.

Levantou-se ainda de costas para o outro. De maneira tranquila retomou a postura altiva.

- Faça uma visita à neta do doutor, Katawari. Já chegou a hora de “brincar”. – disse com deboche.

Outra vez o espanto tomou conta de seu corpo, porém, sem protestar fez uma breve reverência para em seguida deixar o escritório. O homem continuou em pé com o cabelo cobrindo-lhe os olhos; mirava um ponto qualquer a sua frente esperando seu outro “convidado” se pronunciar.

- Até quando pretende manter esse fantoche, Magdalena?

Era uma voz arrastada que se escondia nas sombras daquele lugar. Movimentou-se até o ponto em que os pés descalços, com as unhas mal cuidadas, se mostravam na claridade. Devia ter um pouco mais de um metro e setenta de altura, seus olhos, pouco dilatados, eram de um âmbar raro e os cabelos rebeldes davam-lhe um aspecto vagabundo. Escorreu-se à parede cruzando os braços de maneira que demonstrasse seu enfado, aguardava uma resposta coerente.

- Não fale assim de meu hospedeiro, Rafael.

A voz veio da direção da grande cadeira, o homem a virou de modo que ficasse de frente para seu convidado. Um grande felino branco ficou à vista. Os olhos verdes, o pêlo brilhante. Balançava o rabo de um lado para o outro, e em sua pequena boca os caninos formavam um sorriso.

- Percebe o tamanho da estupidez que comete dessa maneira? Se expondo assim, selando pactos com a escória. Já esqueceu dos velhos tempos? – repreendeu-a o recém chegado.

- Deveria parar de ouvir as minhas conversas, ainda que nessa forma mereço o mínimo de privacidade. – respondeu ignorando por completo o comentário.

- Privacidade? – ergueu uma sobrancelha. – E quanto a esse aí? – apontou sinalizando o homem que permanecia quieto durante a pequena discussão.

- Tenho nome meu caro, sou Lucius, e lady Magdalena foi procurada por minha pessoa. Tenho grande interesse em vossa raça. – apresentou-se cordialmente.

- Sim claro. Aqueles malditos padres da Santa Inquisição também tinham e veja como acabamos, viramos uns ratos que se escondem nos esgotos dessa imunda cidade.

Lucius não respondeu ao comentário, tinha plena consciência dos danos que aquele ser havia sofrido, quem o visse poderia muito bem tachá-lo de grande doido que prega a vinda do apocalipse.

- Não seja tão rude, todos sabemos quem é o culpado dessa nossa situação. Ele, a verdadeira causa de tudo que aconteceu em nossas vidas.

Ele. Os olhos de Rafael afilaram-se ainda mais, seus dentes rangeram. Das mãos surgiram garras com as quais acertou a parede com grande ferocidade. O felino apenas observou indiferente, enquanto o outro indivíduo analisava a cena, espantado. Não tinha idéia de quem seria “Ele”, sua mestra jamais havia mencionado seu nome ou importância. Era uma incógnita. Por outro lado, Rafael tentava conter a raiva que há muito tinha sido contida. Lutava contra sua real natureza.

- Mal...dito... Maldito! Aquele desgraçado é tudo culpa dele... – grunhia com esforço.

A situação já começava a preocupar, se aquilo continuasse os seguranças entrariam e não haveriam palavras para explicar a situação..

- Senhora...

- Deixe-o, isso sempre acontece. O pequeno Rafael é muito sensível. Pode não parecer, mas sofremos muito em razão de nosso passado.

O servo continuou a mirar as ações do ser. Agora ele se apoiava com as garras na parede, mantinha a cabeça baixa emitindo leves urros.

- Logo chegará à hora do acerto de contas... – disse friamente Magdalena. – Lucius, faça o que mandei, não há mais tempo a perder.

- Sim, senhora.

Fez uma breve reverência e saiu da sala, não sem antes dar uma última olhada no estado deplorável de Rafael. Aonde chegariam com aquele plano?

*****

A cidade de onde faço esse relato já foi conhecida por sua grande industrialização, entretanto, agora, a violência virou seu cartão de visitas. Assassinatos não eram nenhuma novidade. Quando a noite caía suas ruas viravam grandes cenários de faroeste, apenas o som do vento era audível, muitas vezes brigas de casais eram ouvidas dos pequenos apartamentos, contudo, eram poucos os que se arriscavam a sair de seus lares. O Bairro de Nicholas não era uma exceção, pelo contrário, era conhecido pelo apelido de proibido. Boa parte da população era composta por traficantes, drogados, ex-presidiários, prostitutas e, principalmente, mafiosos. Vladmir Nikolois era o nome do chefe local, sua especialidade, pílulas antidepressivas, não que fossem meros comprimidos, seu efeito era mais poderoso do que “balas” de LSD. Segundo ele, seu usuário tinha a sensação de prazer triplicada sem grandes danos, obviamente seu grande público alvo vinha de classes superiores, Nicholas era responsável pela distribuição da droga dentro e fora desses domínios, uma tarefa deveras arriscada.

Pouco passava das quatro horas quando havia saído de casa, sem transporte o caminho era longo até o centro da cidade. Percebia os olhares dos capangas de Nikolois, vigiavam-lhe de perto, como abutres em busca de carniça. Não se abalou quanto a isso, já tinha se acostumado. Tratou de pôr as mãos dentro dos bolsos em busca de calor para suas mãos, o frio parecia lhe corroer a carne. Vagou sem rumo por um tempo, ainda era cedo. Observou o relógio, nem uma hora tinha se passado, o que faria até chegar à estação? De relance percebeu os dois que insistiam em segui-lo, acaso esperavam que se encontrasse com o chefe de departamento de narcóticos? Sentou-se numa das muretas que fazia divisa entre dois bairros e puxou um cigarro. Não gostava daquilo, mas o nervosismo lhe consumia. Deu uma pequena tragada e observou os pássaros que se arriscavam a voar, sentiu inveja, de certa forma eram livres, ele não, há muito tinha vendido a alma ao demônio.

Poderia sentir pena de si, mas não conseguia, indiretamente era culpado de tudo o que lhe acontecia. Desde a morte de sua mãe ao abandono do pai. Seu pai, como estaria agora... Quem sabe melhor que ele próprio. O moreno tinha a certeza de ser amaldiçoado o que quer que tocasse transformava-se em cinzas; algo que já não conseguia suportar. Uma segunda tragada e então ouviu passos na sua direção, seus olhos se fecharam em aborrecimento, aquilo não estava nada bem.

- Ei, Lóng! O chefe quer vê-lo. – disse um dos homens, pela sua entonação encontrava-se amolado.

Nicholas o ignorou irritando mais o homem, soltou o toco em suas mãos e levantou-se ainda com uma das mãos no bolso do sobretudo negro.

- Diga a ele que estou ocupado, mais tarde irei vê-lo. – respondeu calmo.

Os capangas entreolharam-se raivosos, mas um deles ainda comentou com ironia.

- Ora, Lóng, você é o servo mais obediente do senhor Nikolois, não gostaria de imaginar o que ele diria ou faria se você recusasse uma ordem direta.

O rapaz manteve os olhos cerrados, franzindo-os levemente, baixou a cabeça e deu as costas aos dois sem temer as consequências.

- Seja lá o que for não estou interessado agora. – finalizou com arrogância para começar a caminhar.

Existia apenas uma regra nesse submundo, se você atravessasse a fronteira entre uma zona e outra estaria protegido de qualquer ação ,do lado contrário, talvez esse fosse seu grande trunfo naquele momento, pois inconscientemente seus pés passaram por aquela linha imaginária dando-lhe um certo alívio.

- Não nos dê as costas, pirralho. – ameaçou o primeiro sacando a arma de dentro da sua jaqueta.

- Pare aí mesmo! – exclamou virando-se com olhos acesos. – Já não estou mais em seus domínios, sendo assim nada pode fazer, se quiser acertar as contas estarei de volta em menos de 12 horas, até lá contenha esse seu ego estúpido.

- Ora seu...

- Kira! Ele está certo, se o fizer o senhor Nikolois terá problemas com Jin-o. – interveio o outro que até agora se mantinha calado.

- Ouça o seu amigo, não vai querer ferrar o seu patrão. – sorriu provocativo.

- Fedelho, não sabe com quem se meteu... – rosnou enquanto baixava o revólver. – Nos vemos mais tarde. – finalizou lhe dando as costas.

- Até, querida Mercedes. – acenou ainda os provocando.

O segundo permaneceu o encarando inexpressivamente.

- O que foi? Perdeu algo na minha cara?

- Tenho pena de você, garoto, só isso. – respondeu também partindo em seguida.

O sorriso desapareceu, dando lugar a expressão vazia. Pena, outra vez ouvia essa palavra, a única que não queria ouvir, a única de que já não era digno. Sorriu com o canto dos lábios e dessa vez foi embora, sem olhar para trás.


segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A MARCHA DOS CONDENADOS

Estou com pressa, muita pressa, perdoem os erros, mas finalmente aqui está o primeiro capítulo. Sim, pode estar meio confuso, mas como eu disse, estou com muita pressa e nem revisei, espero que apreciem e aguardo comentários. Fim.




Capítulo 1

A marcha dos condenados

Já não há como chamar este lugar de Planeta Terra, Gaia, Grande Globo Azul. Por mais esforços que implicaram a guerra contra os próprios erros foi perdida. Agora o céu se cobre de cinza e a água é vendida a preços absurdos, a população se esconde da grande radiação, há mais desertos que cidades.

Não houve uma terceira grande guerra, não existiu uma razão, as nações mais despreparadas se perderam em seu próprio mundo de horror. As grandes e magníficas cidades foram arrastadas por uma onda de caos, se tornando centros de pobreza, violência e desespero. Novas metrópoles surgiram e continuaram nas mãos de poucos, a corrupção virou o coração do Estado, aquele que se rebela é duramente repreendido, estamos vivendo a era de um novo holocausto.

As pessoas já não conseguem sonhar, aliás, não conseguem nem dormir. Refugiam-se em suas casas na ilusão de estarem protegidos. Estupros e assassinatos já não sucedem somente na escuridão, filhos não perecem apenas entre balas perdidas. Não houve mudanças para os pobres, não houve medidas de combate à fome, não houve a preservação dos recursos naturais. O futuro não é como proferiam há tantos anos, não existem carros voadores, não é um tempo de novas tecnologias – as que existem estão sob o poder daqueles que possuem os recursos necessários para dominá-las-, os pais esqueceram as canções de ninar, essas se transformaram em cantos fúnebres.

A decadência das indústrias causa medo no povo, o número de casos de intoxicação é alarmante, faltam alimentos para a população, milhares de crianças são abandonadas por minuto, lixões viraram berçários, e o pior, o dinheiro é lavado com sangue. Agora não existe apenas uma única potência, voltam-se as máfias, “os grandes chefões”; eles empregam a população com armas, drogas, contrabandos, são deuses que todo dia recebem “oferendas”, eles é que ditam as regras, os líderes dos governos são apenas fantoches que uma hora ou outra são descartados publicamente.

Agora vocês já sabem, e podem decidir (eu não tenho escolha) se querem seguir adiante. Retirem a senha, entrem na fila e sejam bem vindos a uma longínqua época, esta será a marcha dos que estão condenados.

*****

Não faço ideia de como hoje denominam esse lugar, apenas sei que se trata de alguma cidade do que um dia foi parte da grande Pequim, num bairro dito proibido, numa terça-feira na Rua 184. Naquele momento eram são seis horas e quarenta e três minutos, dia 31 de dezembro.

Despertava mais um amanhecer, podia sentir a fria brisa cruzar a fronteira com a minha pele, minhas orelhas se arrepiaram, abri levemente os olhos. Permaneci numa posição nada cômoda, encolhido ao lado daquelas “horrendas gárgulas” – se esses tolos realmente vissem uma gárgula acabariam caindo no riso – ao notar a rua abaixo de meus pés vi algumas dezenas de carros naquele bairro, esperei.

As cortinas jaziam fechadas, apesar de que ele nunca as abria, segundo os meus cálculos dentro de cinco minutos despertaria. Podia ver claramente o número 913 grafado naquela porta velha repleta de arranhões, um número um tanto curioso e supersticioso - não para mim, é claro, contudo, divertia-me ao ver esses meros seres mudando de direção ao visualizar um simples gato negro em seu caminho ou um singelo treze no relógio. Sentei-me, dessa vez, ,confortavelmente, na borda, que mesclava o concreto e o metal, do parapeito do prédio, e finalmente percebi os seus primeiros movimentos.

Nicholas Lóng há muito havia perdido as esperanças de usufruir de uma vida digna. Quando criança perdera a mãe, vítima de uma das tantas doenças infecciosas que se alastraram pelos cinco continentes, para não ser menos clichê. Após o fato o pai caiu na bebida deixando de lado toda e qualquer responsabilidade para com o garoto. Nicholas cresceu com a responsabilidade de sustentar seu progenitor trabalhando como o menino de recados da máfia local, convivendo com o perigo adquiriu experiência com armas e o combate corporal, além de se tornar um indivíduo amargurado e desconfiado.

No início tinha tudo para ser um jovem normal– segundo as coisas que ouço por essa cidade-, algo raro em tempos como esses. Era alto, um tanto magricela, dono de olhos castanhos levemente amendoados, nariz carrancudo, braços desproporcionais. Seus cabelos tocavam os ombros e eram negros como a noite. Porém, os problemas apenas se agravaram a partir da última briga com o pai. Na ocasião, Nicholas fora expulso de casa, e desde então se sustentava a partir de pequenos trabalhos, “bicos” - como vocês costumam chamar. Seu humor se tornou instável, suas ações mais violentas, todavia, para piorar a situação descobriu ser portador de um vírus letal obrigando-o a ingerir um rigoroso coquetel de remédios, aos poucos sua fisionomia se modificou, o rosto envelheceu e adquiriu cicatrizes assim como outras partes de seu corpo, o cabelo cresceu dando-lhe um ar mais perverso, as olheiras notavam-se mais freqüentes, a magreza deixava mais claro os músculos. Poderia muito bem dizer que tudo isso era de seu merecimento, mas infelizmente não tenho esse direito.

Nada mais era como antes, já não podia caminhar tranqüilo pelas ruas da cidade, já não conseguia se sentir seguro em seu pequeno apartamento, já não via motivo algum para seguir vivendo naquele estranho lugar.

Por muito tempo as farsas do governo se mantinham escondidas, o Estado modelo, como era chamado havia desmoronado após o caso “Pílulas de Sangue” em que operários da tradicional fábrica de medicamentos do país tinham sido chacinados em menos de vinte e quatro horas, o motivo ainda era desconhecido, pelo menos oficialmente. Só restava uma certeza, os novos tempos estavam começando, mas Nicholas não estava disposto a se adaptar a essa nova vida.

*****

Abriu os olhos repentinamente sentindo o suor escorrer pelo rosto. A respiração ofegante contrastava com a arritmia. Sentou-se levando as mãos aos fios úmidos de cabelo ao mesmo tempo em que o alarme do rádio soou tocando a mesma música dos últimos treze meses. Tateou o peito nu notando a pequena mancha roxa próxima ao abdômen, amaldiçoou aqueles remédios que pareciam mais derrubá-lo do que curá-lo.

“Bom dia! São sete horas de terça-feira, o dia está nublado e a temperatura é agradável”. Anunciou felizmente o locutor.

Lançou um olhar de desprezo ao aparelho, resmungando em seguida.

- Não me diga... O governo também decidiu doar dinheiro aos pobres? – levantou-se e caminhou em direção ao roupeiro onde se serviu da única camisa branca presente neste.

“Não vá se atrasar, caro ouvinte, pois é véspera de ano novo e o trânsito será dos piores!”.

- Sim, sim, agora cale a boca... – respondeu para o nada enquanto seguia até a cozinha.

Um lugar velho, jogado às traças, a tinta se desprendia das paredes enquanto a madeira podre do armário rangia. Na pia não havia sujeira, mas o ralo continha uma enorme quantidade de ferrugem e baratas. A pequena vidraça, coberta pelo pó, mal permitia a vista até o prédio vizinho, enquanto as cortinas se mantinham impecáveis. Não era um cômodo desorganizado, pelo contrário, xícaras e talheres estavam em seus respectivos lugares ordenados um a um, as cadeiras eram três, gastas, assim como a mesa, todos os objetos pertenciam à antiga mobília. A única mudança visível no local era a iluminação que tinha sido substituída por uma lâmpada mais fraca, deixando o ambiente em leve penumbra, algo que dava um ar misterioso ao recinto.

Ao abrir a porta da geladeira deparou-se com escassos alimentos. Uma garrafa de cerveja com apenas metade do seu conteúdo, algumas folhas de alface, uma caixa de leite vazia, e um pedaço de queijo que continha bolor. Analisou-os por alguns instantes para enfim se decidir pegando a garrafa. Fechou-a tomando alguns goles do líquido amarelado.

“Miau”. Faminto o gato negro ronronava se enroscando entre as pernas de seu dono que apenas o ignorou.

- Agora não, Midgar, vá caçar ratos.

Em cima do balcão jazia o frasco branco das pílulas matinais, tirou duas e as engoliu sem mais caretas, em seguida tragou mais um pouco da bebida. Puxou uma cadeira e sentou. Em cima da mesa o jornal do dia anterior o qual estampava como manchete mais um frustrado ataque aos caminhões de água monopolizados pelo governo. Sorriu com escárnio.

- Bando de idiotas, esse tipo de golpe nunca irá funcionar. – disse ainda pensando estar só.

- E você sabe como fazer funcionar? – perguntou uma voz suave vinda da porta da cozinha, causando grande espanto no moreno.

Nicholas girou os olhos naquela direção e gelou ao ver aquela imagem tão serena. Hana; uma moça de estatura mediana, silhueta delgada e de aparência simples, cabelos louros e olhos verdes, apesar do sotaque russo suas falas não deixavam de ser suaves. Ela lhe lançou um leve sorriso que não recebeu resposta.

- O que faz aqui? - inquiriu ríspido dando as costas à moça para em seguida largar a garrafa vazia na pia.

Ela não entendeu muito bem aquela atitude, ou simplesmente resolveu ignorar, mas não perdeu o bom humor.

- Eu tenho isso. – disse largando o molho de chaves sobre a mesa – Esqueceu?

Nicholas não respondeu, analisou a loira dos pés a cabeça tentando entender a situação, petrificou ao ver como ela puxava uma cadeira.

- O que temos para o café? – perguntou ela inocentemente.

Para o rapaz aquilo soou mais como uma provocação e em razão disso deixou transparecer sua fúria.

- Ainda não me respondeu, por que você está aqui? – pousou as mãos sobre a madeira de maneira pouco delicada.

A mulher estremeceu perante o gesto violento perdendo qualquer fala coerente. Tentou olhar dentro daqueles olhos, mas eles pareciam não lhe dar nenhuma resposta.

“Miau”. Repentinamente o felino saltou sobre o colo da moça amenizando a situação.

- Midgar! O que foi? – aninhou-o ignorando o ser estático a sua frente.

- Largue o gato e olhe para mim quando eu estiver falando! – novamente ela o ignorou enfurecendo ainda mais o rapazHana! – bradou socando a mesa assustando o bichano que correu para o lugar que parecia a área de serviço.

- Veja só o que fez! Assustou o pobre. Qual é o seu problema, Nicholas? – seus olhos já não demonstravam mais a mesma serenidade anterior, contudo, ele mal se importou com a pergunta, apenas revidou:

- Por que não responde “a minha pergunta?” – inquiriu infantilmente fazendo-a perder a boa conduta que mantinha.

- Quer saber? Eu só queria salvar o nosso relacionamento, mas estou vendo que isso é impossível tratando de alguém como você. – começou com os olhos já vermelhos e lacrimejantes, tremia, se aquela bolsa fosse de qualquer outro material estaria em pedaços. – Não sei o que aconteceu, nesses últimos meses essa sua mudança, seu comportamento, nos afastamos tanto... – declarava a beira das lágrimas -... Que fim levou nosso amor, Nick... Pode me responder?

Ele sabia, não tinha essa resposta, percebia o olhar triste, percebia o esforço naquelas palavras, mas... Raciocinar era algo difícil para ele. Hana o encarou, esperou, baixou o olhar, o fez vagar por um canto qualquer do cômodo, mas só recebeu o silêncio. O jovem engoliu seco, também mudando a direção do olhar que pairava sobre as ripas do chão, enfim, resolveu dar um fim àquela incômoda situação.

- Era só isso que queria me dizer? – perguntou frio.

Incrédula, era o que diziam os olhos da moça sobre o seu atual estado.

- Só... – respondeu fraco.

- Então acho que não vai mais precisar das chaves. – apontou com as mãos nos bolsos do jeans velho, o molho sobre a mesa.

A loira não quis acreditar em tais palavras, deu pequenos passos para trás e num impulso saiu correndo daquele apartamento batendo a porta com fúria ao sair. O rapaz somente tratou de mirar a direção por onde sua ex havia tomado rumo. Suspirou sem arrependimentos, no fim nem ele entedia o que estava se passando na sua cabeça. Tinha a impressão de que se a afastasse a estaria salvando de algum mal, a salvando de seu ego. Até porque ela havia mencionado o amor, mas o que na verdade era esse sentimento? Nicholas sabia que em nenhum momento havia amado aquela doce garota, talvez a desejado, mas nunca a amado, no máximo um sentimento de gratidão por tentar salvá-lo de uma rotina de dor e escuridão, contudo, o amor ele só tinha provado uma única vez e muito tempo se passou desde então, desde que sua amada mãe havia migrado para o mundo dos mortos.

Voltou a atenção para o jogo metálico que permanecia sobre a mesa. Perguntou-se o motivo da loira ter o trabalho de carregar tantas chaves consigo. Recolheu o objeto e o analisou como se escondesse um grande mistério. Contou. Eram cinco no total, pareciam tão frias.

A de cobre abria a porta da recepção, a prata pertencia à entrada, a verde indicava o pequeno escritório abandonado, a negra encaixava-se perfeitamente na fechadura de seu quarto, mas a dourada... A dourada era a incógnita, não havia qualquer outro trinco em sua moradia. Toda atenção focou-se naquele pequeno objeto, o discreto brilho o atraia, sentia um rastro de energia a circulando, algo que o embriagava, seduzia. Teve a nítida impressão de ela estar o chamando com pequenos sussurros. ”Tum dum tum dum tum dum” – as batidas de seu agitado miocárdio. Uma voz grave e maciça, um coro, um grito...

“Miau”.

Saltou ao ouvir o miado daquele maldito gato que agora o mirava com cautela de modo que parecia saber de alguma coisa. Teve medo, pela primeira vez em um muito tempo. Sentiu um frio na espinha, sentiu o sangue gelar, sentiu novas palpitações. Estremeceu quando seus olhares cruzaram, e ao analisar uma última vez aquelas chaves o felino desapareceu. Como se segurasse em brasas largou-as no chão cru. O som ecoou pelo silêncio do prédio quase abandonado, e o rapaz não teve dúvidas em deixar a cozinha.

O caminho era curto, mas teve a nítida sensação de estar sendo observado por olhos demoníacos. Sua cabeça começou a pesar, a latejar, um choque de nervos que o fadigavam. Cambaleou, chocou-se contra a estante, sofá, luminária. Levou as mãos à cabeça, tudo parecia girar. Imagens queriam se formar, todavia, nada mais era nítido, nada. Despencou em seguida sobre as velhas almofadas da poltrona batendo com semelhante força no assento da mesma, desmaiou tendo a certeza de ter visto o felino lhe observar serenamente.

*****

A sala mantinha-se escura, era pouca a luz que conseguia atravessar as cortinas acinzentadas. Entre frascos, compostos e tubos de ensaio a figura do pequeno cientista se formava. Em cima do balcão diversas folhas rascunhadas eram reviradas por ele que tentava decifrar aqueles dados. Falava sozinho, largava injúrias aos pobres relatórios que não podiam se defender. Olhou para o relógio, já eram oito horas, o pequeno filete de suor contornou a haste dos óculos. Engoliu a saliva em um esforço, as peças do quebra cabeças pareciam se formar em sua mente, unindo as partes que faltavam.

Puxou uma folha em branco tratando de repassar as novas informações. As olheiras se acentuavam, piscou inúmeras vezes passando a mão sobre a testa enrugada. O leve pingo de suor penetrou na fina lâmina borrando o pequeno escrito. O “tic tac” do relógio se fazia mais presente, acompanhando seus tremeliques. Faltava pouco, muito pouco para completar sua tese. O cromossomo chave, o DNA certo, evolução. Não podia deixar de mirar o ponteiro dos segundos, moviam-se rapidamente, cada vez mais perto de seu prazo. Voltou a olhar para o papel, os números pareciam embaçar, correr, se ocultar. Piscou. A lente dos óculos nublava. O jaleco branco molhava nas bordas, as mãos umedeciam, e por mais que tentasse as secar, a sudorese apenas crescia.

Ouviu claramente os passos nas escadas, as vozes cada vez mais próximas, próximas... Até o escancarar da porta. Sentou-se tranqüilo, cruzou as pernas, buscou a xícara tentando disfarçar o nervosismo, esperou até que o grupo de brutamontes desse passagem ao chefe. Encostou levemente os lábios naquela fina porcelana, apenas seu gole foi audível, mirou aqueles homens de preto, sérios, carrancudos, eram quatro, quatro fazendo a segurança de uma criatura medíocre.

- Ora, ora, o doutor Woang bebe chá, quem diria, eu, Katawari, fico surpreso com tal imagem, posso saber o sabor?

Sim, sua fala carregada de ironia demonstrava o desprezo que tinha pelo velho. Um ser que sabia ser superior apenas rodeado de seguranças ou com uma arma em mãos. Podia muito bem ser confundido com um filhinho de papai, vinha de uma família tradicional. O termo bem passado, o cabelo negro alinhado, os olhos levemente abertos. Parecia um morto, a pele pálida, os lábios quase sem cor. Franzino, baixo demais por ser um homem.

O cientista o encarou, desafiador, bebeu mais um gole até abandonar a bebida deixando a xícara junto ao pires sobre a mesinha ao lado do sofá. Ignorava-os completamente. Alguns daqueles homens se entreolharam, esperando ordens, mas o rapaz apenas sorriu com escárnio.

- Sabe que não é uma atitude sensata negar minhas vontades, não esteja tão certo de seu destino, doutor, as coisas podem mudar a seu favor dependendo das suas palavras. – disse enquanto caminhava a passos lentos na direção do balcão bisbilhotando os papéis que ali jaziam. – Posso falar com “ele”, mas sabe que não gosta de ser incomodado, por isso, basta dar o que eu preciso. - finalizou com um sorriso enquanto parava ao lado do velho.

Nada, continuou inerte como se aquilo não o interessasse, o outro bufou, mas não perdeu o sorriso, baixou a cabeça e com a vista oculta por algumas mechas de cabelo sussurrou tranqüilo.

- Sabe, vovô, eu sempre quis conhecer a sua neta, como é mesmo o nome... Lee... Leung... Como é mesmo?

A fala causou lhe certo efeito, pois seus olhos estreitaram, por debaixo do jaleco firmou-se em algum objeto, e num salto pôs a pequena arma no centro do crânio do outro que paralisou entre o experto e o balcão. Os guarda-costas armaram-se e miraram numa única direção, mas o moreno, ainda sorrindo, lhes deu um sinal de que estava tudo bem.

- Se você ousar tocar num fio de cabelo da minha neta eu juro que explodo seus miolos, seu crápula.

- Calma, eu apenas disse que queria conhecê-la. – ironizou.
A arma tremia em suas mãos, outra vez aquela sudorese, o sangue fervia, subia. Como podia rir numa hora dessas? Ele estava lhe apontando uma arma bem no centro da cabeça, com o dedo no gatilho... Como ainda debochava de sua situação? Queria, queria atirar, mas o pouco de sanidade que ainda restava o impedia.

- Vamos, abaixe essa arma, sabe muito bem que sou eu quem lhe sustenta, quem lhe apóia, de nada adiantaria me matar, uma palavra minha e “ele” viria até aqui, acabaria com a sua miserável vida num segundo, e o que seria da sua preciosa neta depois disso? Diga-me!

Pela primeira vez ele falava sério, sem nenhum tipo de expressão alegre, no fundo temia a morte e sabia que motivos não faltavam ao ancião para querer tirar-lhe a vida. Já Woang só conseguia ouvir as batidas do seu coração, Katawari falava sem parar, mas apenas distinguia o movimento da boca, sem som, ruído, voz. Sua pressão descontrolava-se, sentia-se estranho, um mal estar, como se a morte estivesse próxima. O moreno o observou perplexo. Segurou-o impedindo a queda, em conseqüência dos espasmos que o velho sofria. Naquela manhã a última imagem do doutor fora a janela com vista para o parque Central.